Arquivo por Junho, 2007
Crítica literária
TRAVESSURAS DA MENINA MÁ, Mario Vargas Llosa. Ganhei um exemplar desse livro no meu aniversário de uma amiga querida. Li e gostei, porque gosto de coisa bem feita. O narrador é o personagem principal, Ricardo, um cara bonzinho que se apaixona (óbvio) por uma menina má, na verdade, uma mulher egoísta e oportunista. A história se passa ao longo da vida do cara, em diversas cidades do mundo: Lima, Paris, Londres, Tóquio e Madri (eu visitei todas elas, com exceção de Tóquio, foi legal imaginar os bairros que o cara menciona, pois vários deles eu conheci). Como quase todo homem tem um pouco ou já foi o cara bonzinho e quase toda mulher tem um pouco ou já foi a menina má (hehehehehehe) , é natural gostar do livro, tão bem escrito. E não pense que, apesar do tema ser óbvio, ele é previsível: não é, vc. verá.
AS CRUZADAS VISTAS PELOS ÁRABES, Amin Malouf. ?timo livro de história. O nome diz tudo: é indicado para quem quer ver a visão dos árabes a respeito da invasão da terra santa pelos ocidentais e seus aliados, que lá permaneceram por cerca de dois séculos (e voltaram recentemente, com a criação de Israel em 1948 e subseqüente expansão territorial). Embora menos numerosos, os ocidentais eram unidos e mais bem organizados; já os árabes eram desunidos. Interessante que os cruzados trouxeram coisas boas para as populações conquistadas, o que facilitou sua permanência no poder. Não fosse por esse fato e pela existência da bomba atômica nos dias de hoje, diria que o livro é atual… A primeira metade do livro é um tanto infantil, com numerosas descrições de batalhas; depois o livro fica bem mais interessante.
Crítica de cinema
O CHEIRO DO RALO (Brasil): ótima comédia de humor negro. Ao contrário de certas produções nacionais, as interpretações são ótimas (exceto a de uma atriz não tão secundária, que vc. perceberá ao ver o filme). O ator que interpreta o personagem principal, Loureço, é também o narrador, já que o filme é introspectivo. Sua atuação é excelente. Como o filme é psicológico e bem feito, vc. conseguirá entrar na mente do personagem principal e entender suas pirações. Risadas garantidas, especialmente se vc. for homem ou compreender o imaginário masculino brasileiro.
SAL? OU OS 120 DIAS DE SODOMA (Itália): é um filme político e não de sacanagem (talvez algum tarado possa ficar excitado com as cenas de perversão sexual e de sadismo ao longo do filme…) O filme se passa durante a ocupação alemã na Itália, época em que Mussolini foi resgatado da prisão pelos nazistas e fundou a “República de Salò”. A história é a seguinte: quatro fascistas (um nobre, um padre, um magistrado e um capitalista, de forma emblemática) e seus soldados mantêm um grupo de adolescentes cativos em uma mansão. A dominação política, que existia no mundo da época e existe até hoje (mesmo nos países democráticos), é representada pelos atos de sadismo e de perversão sexual praticados pelos fascistas. As célebres cenas em que os fascistas comem cocô e obrigam todos a comerem cocô representam o lixo cultural que é imposto a toda população pela mídia. Depois desse filme, Pasolini foi assassinado (há quem diga que a mando de algum setor Igreja Católica, mas eu não creio nisso…). Já me disseram que esse filme está disponível dublado em espanhol no e-mule, mas eu não tenho certeza, porque nunca usei esse programa.
HABANA BLUES (Cuba/Espanha): a história de um grupo musical cubano que deseja ir para o exterior. As músicas são excelentes e vale a pena comprar o DVD, porque vc. vai querer ver o filme várias vezes: aparecem vários grupos cantando e dançando, pois o tema de fundo é esse. Não vou contar o filme, porque perde a graça. As interpretações são ótimas, o sotaque cubano dos atores é divertido, a história é muito boa, engraçada, bonita etc. Os personagens, com o perdão do pleonasmo, “têm personalidade”, ao contrário do que freqüentemente ocorre no cinema americano, que usa personagens padronizados, sem maior profundidade. O filme acaba sendo psicológico e político, já que é a realidade de Cuba que faz o grupo querer ir para o exterior. Como nas outras ótimas produções cubanas que passaram por aqui (Morango e Chocolate, Guantanamera), há uma crítica inteligente ao regime político e econômico cubano, coisa que não vemos nos jornais ou no discurso da inepta (e sinistra) oposição cubana sediada em Miami. Enfim, um filme excelente.
Alguns exemplos de como a mídia manipula a mente das pessoas.
Entre abril e junho de 2007, selecionei algumas notícias veiculadas pela grande imprensa e fiz comentários a respeito de como o vocabulário é utilizado para induzir o leitor a uma conclusão. O objetivo é mostrar que a mídia não é nada imparcial: ao contrário, a mídia está (óbvio) a serviço de quem controla a mídia.
Veja abaixo as notícias e os comentários:
Título do texto: “Diplomacia ou terror”
Veículo: Correio Brazilense, 13 de junho de 2007
Parte ridícula: “Entre cruz e espada, regimes árabes moderados - començando pelo o saudita - nadam em águas cada vez mais revoltas (…) O único antídoto é o diálogo”.
COMENTÁRIO: Em matéria de democracia, direitos civis e liberdade, a Arábia Saudita não está melhor do que o Irã (acredito que seja um pouco pior, por mais estranho que seja achar que alguma ditadura possa ser pior que a do Irã…). Apenas para se ter uma idéia, há algum tempo (governo FHC), a esposa do Embaixador do Brasil na Arábia Saudita foi espancada pela polícia religiosa (!), pois não estava usando véu. A imprensa, claro, não deu o devido destaque para essa atrocidade (vá lá, te desafio a achar essa notícia no Google!), tampouco vi qualquer ação séria da diplomacia brasileira à época em razão dessa violência ao Brasil (Governo FHC…). O nome do país - Arábia Saudita - é o nome da família que o domina politicamente (Bin Laden, antigo aliado dos EUA, é membro dessa família), quero dizer, que é dona do Estado soberano que leva seu nome.
Por que o texto diz que o governo saudita seria “moderado”? O motivo é simples: embora seja uma ditadura religiosa tão feroz como a do Irã (provavelmente pior: vc. já viu algum filme do cinema saudita? Será que existe?), a Arábia Saudita é alinhada com os EUA, tanto do ponto de vista político, como do ponto de vista econômico.
Caso quisesse, o Reino Saudita, riquíssimo em petróleo, poderia resolver facilmente o problema do Oriente Médio. Se uma (pequena) parte do dinheiro arrecadado com a venda do petróleo fosse destinado a indenizar os refugiados palestinos, o conflito no Oriente Médio acabaria. ? só uma questão de matemática financeira: qualquer país do mundo (até Israel) aceitaria os investidores palestinos (sim, com dinheiro, deixariam de ser refugiados e passariam a ser investidores…). Mas isso faria a guerra acabar!.. Aí a indústria bélica (especialmente nos EUA) não iria vender tantas armas, os serviços de inteligência e polícia secreta teriam de demitir seus quadros, as massas árabes não mais veriam Israel como inimigo e poderiam se voltar contra seus governos, os generais israelenses perderiam poder político etc etc etc
O fato é que, por ser aliada dos EUA, a imprensa ocidental vende a imagem de que o regime saudita é “moderado”, ainda que seja um dos regimes teocráticos mais opressores do mundo.
Quanto ao “diálogo” como “antídoto”, nada mais falacioso: desde a fundação do Estado de Israel o que mais tem ocorrido é “diálogo” entre as partes envolvidas, com os mais variados mediadores. A população palestina não aguenta mais “diálogo”, não aguenta mais blá-blá-blá: tanto é que votou no Hamas! O “antídoto” é vontade política para resolver o problema. E esse problema seria facilmente resolvido com dinheiro… hoje usado para armas (veja quanto EUA e Israel já gastaram com armas no Oriente Médio: faça a conta, daria para cada palestino ser aceito em qualquer programa de imigração, mesmo de países ricos, como Canadá, Austrália, Nova Zelândia… E ainda sobraria dinheiro para ajudar os refugiados do Sudão, Ruanda, Burundi, Moçambique, Timor-Leste…)
Título do texto: “Protestos marcam saída do ar da RCTV, de oposição a Chávez”
Veículo: Agência Estado, 27 de maio de 2007 - 20:55
Parte ridícula: “A RCTV está no ar há 53 anos, mas o governo venezuelano se negou a renovar sua concessão para transmitir pelo canal 2, alegando que os diretores da emissora são “golpistas” e ela não teria cumprido adequadamente com seus compromissos legais e fiscais. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), organização que agrupa os meios de comunicação privados do continente, qualificou neste domingo, 27, a decisão como um “castigo” e se mostrou preocupada pelo que considerou um “atropelo” da liberdade de expressão na Venezuela. “? evidente que se está limitando o acesso à informação com o fechamento (da RCTV). Só regimes autoritários tomam medidas como essa”, disse Gonzalo Marroquín, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP.”.
COMENTÁRIO: Evidentemente, os grandes grupos econômicos se julgam “donos” do Estado, se julgam “donos” daquilo que é uma concessão do Poder Público, daquilo que é um serviço público, que são os meios de comunicação de massa. Por isso o poder econômico reagiu com tanta indignação quando o Governo da Venezuela não renovou a concessão de um grupo empresarial que, utilizando-se dessa concessão de serviço público, apoiou o golpe de Estado (!) que tentou derrubar um governo democraticamente eleito (frise-se: eleito de acordo com o conceito ocidental de “democracia”).
O título também evidencia o mau uso da concessão que não foi renovada: uma TV não pode ser “de oposição” a um governo (muito menos apoiar a derrubada desse governo pela força). A concessão de serviço público não pode ser usada com fins políticos, mas sim deve atender ao interesse público que decorre da existência do serviço público. Uma TV não pode ser usada para beneficiar ou prejudicar este ou aquele político. Uma coisa é uma TV ter uma linha editoral pluralista, independente e crítica (ou mesmo extremamente crítica) em relação ao governo; outra coisa, muito diferente, é uma TV manter uma linha de “oposição” ao governo…
Mas a grande sacanagem do texto é dizer que a “A RCTV está no ar há 53 anos”, de modo induzir o leitor a achar que o largo período faz do ato de não renovação algo ilegítimo. Na verdade, a situação é oposta: absurdo é deixar um grupo empresarial deter por tanto tempo uma concessão de serviço público.
Título do texto: “Venezuelanos protestam contra fim da TV estatal”
Veículo: Agência Estado, 27 de maio de 2007 - 01:07
Parte ridícula: - “Vários venezuelanos protestaram em diferentes bairros de Caracas contra a não renovação da licença à emissora “RCTV”, que deixará de ser transmitida em sinal aberto neste domingo à noite. (…) ‘?s 22h foram ativados os alarmes em Caracas em defesa da liberdade de expressão e em protesto contra o fechamento da ´RCTV´, afirmou a emissora privada. (…) Os milhares de manifestantes usaram gritos de “Liberdade, Liberdade!” e palavras de ordem contra o Governo do presidente Hugo Chávez para expressar sua rejeição à não renovação da licença da RCTV”.
COMENTÁRIO: Não sei se o título decorreu de erro ou de uma manifestação do subconsciente: a TV fechada pelo Governo da Venezuela seria mesmo “estatal”, pois nenhuma TV seria “privada”, exatamente porque nenhuma concessão de serviço público é “propriedade” de qualquer pessoa física ou jurídica…
O texto tenta demonstrar que o “povo venezuelano” estaria clamando por “liberdade”, manifestando-se contra a ação “do governo”, sem mencionar que também houve manifestações favoráveis à não renovação. Na verdade, sabemos que o povo venezuelano está dividido, com pessoas favoráveis e pessoas contrárias ao atual governo. Ou seja, na verdade, PARTE do povo se manifestou a favor e PARTE do povo se manifestou contra. Mas o texto não diz isso, optando por mencionar apenas as manifestações populares (?) organizadas contra o governo. Evidentemente, também não menciona o texto quem estaria financiando as manifestações, muito menos que a tal “liberdade” só existe efetivamente para quem detém poder econômico (a não ser, é claro, que vc. ache que o “Blog do Bruno” tem tanta força quanto o “Jornal Nacional” da família Roberto Marinho…).
Título do texto: “Israel detém líderes do Hamas”
Veículo: Correio Braziliense - 25.5.2007, p. 22 -
Parte ridícula: o título (!) e mais: “Durante a madrugada de ontem, foram detidos 33 líderes da facção na Cisjordânia (…) fontes militares justificam as detenções alegando que o Hamas pretende transferir a luta de Gaza para a Cisjordânia (…) No plano político, o chefe da diplomacia da União Européia, Javier Solana, afirmou ontem que o governo da AP ‘não funciona nem aceita responsabilidades’ na Faixa de Gaza.”.
COMENTÁRIO: O título do texto afirma que Israel teria “detido” líderes do Hamas. Aparentemente, seria uma ação policial (”detenção”). Mas o próprio texto revela que, na verdade, o que houve foi a prisão de pessoas que ocupam cargos no governo palestino: “Durante a madrugada de ontem, foram detidos 33 líderes da facção na Cisjordânia - incluindo um ministro do gabinete, parlamentares e prefeitos.”
Quando os palestinos capturaram o Cabo israelense Gilad Shalit em uma ação militar, a imprensa passou meses falando que seria “seqüestro” e se referindo ao prisioneiro como “refém” (vide abaixo). Na verdade, seqüestro é o que fez Israel, embora o texto não diga claramente: durante a madrugada, comandos israelenses invadiram casas, situadas no território palestino, de pessoas que ocupam cargos no governo palestino democraticamente eleito. Mas a imprensa não fala que foi uma invasão; fala em “detenção”: não usa a palavra “prisão”, muito menos “seqüestro”…
A “justificativa” apresentada pelas “fontes militares” israelenses é ainda mais ridícula: como “suspeitam” que o Hamas irá levar a luta para a Cisjordânia, prendem membros do governo palestino…
No mais, sem querer, o mencionado chefe da diplomacia da União Européia acaba falando a verdade: é evidente que o governo da AP não funciona, não só porque o dinheiro dos impostos pagos pelos palestinos que vivem nos territórios ocupados não é entregue à Autoridade Palestina, mas também porque os membros desse governo são presos (ou “detidos”, como diz a mídia…) por Israel. Aí fica mesmo difícil algum governo sequer existir…
A mídia sempre tratou a invasão dos territórios da Autoridade Nacional Palestina como algo absolutamente normal, sem mencionar que isso é uma gritante violação dos tratados de paz celebrados por Israel com a OLP. A coisa ganhou ares mais ridículos desde que o Hamas venceu a eleição (realizada nos moldes ocidentais, dentro do conceito ocidental de “democracia”…), quando o dinheiro dos impostos cobrados dos palestinos nos territórios ocupados foi confiscado por Israel e os EUA deixaram de considerar o governo palestino como legítimo. Ou seja, a eleição e o governo só são legítimos quando quem ganha é o lado que os EUA desejam.
Título do texto: “Seqüestro provocou carnificina”
Veículo: Correio Braziliense - 3.5.2007, p. 22 -
Parte ridícula: “Em 12 de julho do ano passado, a milícia xiita libanesa Hezbollah disparou foguetes Katyusha e morteiros contra vilarejos israelenses próximos à fronteira (…) Enquanto a ofensiva ocorria, uma unidade do Hezbollah cruzou a divisa, seqüestrou dois soldados israelenses e matou três. Forças especiais tentaram resgatar os reféns, mas outros cinco militares foram mortos na batalha.”
COMENTÁRIO: De forma intensa, os jornais chamaram a captura de um militar israelense, em uma ação armada, de “seqüestro”. Até então, eu nunca tinha visto a utilização do vocábulo “seqüestro” para a captura de um militar durante uma ação armada ou um prisioneiro ser chamado de “refém”. Evidentemente, a nomenclatura usada (”seqüestro” e “refém”) foi largamente utilizada para tentar justificar a ação armada que se seguiu: o ataque contra a economia e a população civil libanesa. Como esse ataque atingiu a população civil e a economia em proporções inimagináveis e os supostos objetivos israelenses não foram atingidos, os jornais foram obrigados a reconhecer que Israel apenas provocou uma carnificina. Não dá para esconder algo tão grande. Mas, para melhorar a situação, tenta ao menos justificar o erro. Por isso o título diz que foi o “seqüestro” que provocou a carnificina e o texto começa narrando as ações militares perpetradas pela milícia xiita. Propositalmente, não menciona as ações militares israelenses anteriores a 12 de julho. Em última análise, o texto procura passar a idéia de que a carnificina somente ocorreu em razão de prévias ações do Hezbollah.
Título do texto: “Olmert afirma que Israel responderá a ataques de Gaza”
Veículo: REUTERS - 29.04.2007 10:41 -
Parte ridícula: “A violência na fronteira entre Israel e Gaza cresceu nos últimos dias, desde que militantes do Hamas romperam o cessar-fogo de cinco meses na semana passada, depois que Israel matou nove palestinos em conflitos na Cisjordânia ocupada.”
COMENTÁRIO: o veículo quer passar a idéia de que quem violou a trégua foi o Hamas, mas no trecho transcrito deixou escapar que a ação do Hamas só ocorreu “depois que Israel matou nove palestinos”.
Ainda sobre a mídia: documentário a respeito do golpe de estado na Venezuela, com destaque para a atuação das redes de televisão
Disponibilizado no YouTube, veja interessante documentário irlandês a respeito do fracassado golpe de estado ocorrido na Venezuela, que tentou tirar Hugo Chávez do governo. O documentário mostra como foi participação das redes de televisão privada durante todo o processo.
Para ver o documentário, CLIQUE AQUI e quando abrir a janela do YouTube, clique em Play All Videos (estará do lado direito), pois o documentário está dividido em dez partes e há mais quatro extras disponibilizados.
Tire suas conclusões. Uma pergunta para você já ir meditando ao longo do filme:
- Por que as pessoas que são contra o Chávez não saíram às ruas em apoio ao golpe? (Observe que a mídia estava ao lado dos golpistas)
Minha opinião: essas pessoas detestam o Chávez, mas não querem uma ditadura, nem mesmo transitória. Preferem aguentar o Chávez…
Você verá belas imagens (ex. Palácio Miraflores) e dará boas risadas (ex. músicas e sotaque dos chavistas, cara-de-pau dos barões das mídia etc). A parte mais engraçada é a declaração final do governo dos EUA, dizendo que não tiveram qualquer participação no golpe!..
Valendo um ponto na prova: qual a diferença entre um bando de subversivos e uma Assembléia Constituinte?
Porra, ainda bem que, na época em que eu era aluno, nenhum professor colocou essa pergunta na prova.
Mas poderia ser pior: já pensou se, na época em que eu era professor, algum aluno do começo do curso, cheio de romantismo, me perguntasse isso? O que eu deveria fazer, dizer a verdade?
E se esse aluno idealista decidisse abandonar o curso depois da minha resposta sincera? Que merda… Será que eu seria demitido?
Ainda bem que nada disso aconteceu e eu posso então dormir tranqüilo.
- Mas, qual é a diferença entre um bando de subversivos e uma Assembléia Constituinte?
- Ora, professor, é mesma diferença entre um terrorista e um herói de guerra!
Bin Laden, o santo protetor do Brasil.
> > Na verdade, eu acho que a coisa é um pouco mais complexa, pois envolve interesses outros, principalmente nos EUA.
> >
> > Os EUA têm uma máquina burocrática voltada para a inteligência política e militar, espionagem etc que precisa funcionar. Os EUA têm um gasto militar gigantesco. Mas a URSS acabou e Cuba não mete medo em ninguém. Como justificar para o contribuinte americano tantos gastos? O que sobra é a Coréia do Norte e os árabes. O Oriente Médio é uma desculpa interessante, pois tem petróleo.
> >
> > Além da imensa máquina burocrática e militar, tem toda uma outra máquina na iniciativa privada que vive da guerra. Imagine quantas pessoas ganham dinheiro produzindo artefatos bélicos ou prestando serviços para o exército americano… Tudo isso precisa ser justificado.
> >
>> Bomba tem prazo de validade, como qualquer produto. Como descartar material bélico vencido? Mais fácil e mais barato usar no território dos outros (e ao mesmo tempo, mostrar que todos os gastos são necessários).
>>
> > Se vier a paz, muita gente vai parar de ganhar dinheiro. Ou seja, vão trabalhar para manter a situação atual, como forma de manter a própria sobrevivência.
> >
> > Por outro lado, o que seria dos generais israelenses se a paz viesse? Hoje os generais têm significativo poder POLÍTICO em Israel. Compare com o poder político que têm os generais nos países pacíficos, como o Brasil.
> >
> > Ou o que seria dos dirigentes dos países árabes, que mostram ao povo o “inimigo” judeu, mas nada fazem contra ele? No dia que inexistir o “inimigo” judeu, será que as massas árabes não vão derrubar seus respectivos governantes?
> >
> > Como justificar (para o contribuinte americano) a ajuda americana a Israel se paz viesse? Será que Israel viveria sem esse dinheiro? (Será que Acre, Roraima ou Amapá viveriam sem o dinheiro dos funcionários públicos federais?)
> >
> > E já que falei no Brasil e na necessidade (para alguns!..) de produzir e usar bombas etc, só nos resta, de forma pragmática, agradecer (a Deus, para quem acredita) a existência de Sadan Hussein (ex-aliado dos EUA), Bin Laden (ex-aliado dos EUA), Hamas (ex-aliado de Israel) etc: se não fosse a guerra no Oriente Médio, talvez (ou provavelmente) o destino dos artefatos bélicos dos americanos fosse a América Latina. Afinal de contas, aqui tem o Chavez, o Morales e até mesmo Alan Garcia e Lula (e a amazônia, claro)… Arrumar pretexto para a guerra é fácil (vide o que aconteceu na Sérvia, a BBC mostrou até criança albanesa lourinha chorando… E ela (a menininha, claro) falava inglês!)
> > Em outras palavras, somos nós quem poderíamos dizer “viva Bin Laden” e rezar por ele… Triste, não?
> >
> > Só estou curioso para saber o que a China (a próxima potência do mundo) vai fazer nos próximos anos, ou melhor, nas próximas décadas… Mas aí é papo para outro e-mail… Será que vamos sentir saudades da dominação dos EUA? Conversaremos sobre isso no churrasco dos 30 ou 40 anos de formados (considerando que até lá nós ainda existiremos).
> >
> > Abraços,