Arquivo por Junho, 2008
O vinho e a globalização
“Quanto mais caro, melhor”. Foi o que me disse uma garçonete na cidade portuguesa de Ã?bidos, quando eu perguntei a diferença entre os vinhos da região disponÃveis no cardápio. Diante da insólita resposta, escolhi um no escuro e dei sorte, porque gostei do vinho e ainda comprei outra garrafa para levar para o Brasil.
Penso que a garçonete em questão poderia trabalhar para um desses caras que dão “notas” para vinhos. Afinal de contas, ela hierarquizou os vinhos por um critério: o preço. Ã? um critério, como há outros. Eu tenho um outro critério: o melhor vinho é aquele que eu estou com vontade de tomar em um determinado momento. Isso significa que o melhor vinho para mim provalmente não é o melhor vinho para o “Wine Expectator”, para o Parker ou mesmo para a média das pessoas.
Se você assistiu o “Mondovino”, entendeu perfeitamente os meus comentários irônicos.
Algum tempo depois eu fiquei hospedado em uma vinÃcola em Arbois, na região do Jura (França). Duvido que você tenha ouvido falar nessa linda cidade medieval ou nos vinhos dessa região. Pois é, eu fui lá e fiquei em uma vinÃcola que produz apenas treze mil garrafas/ano. Uma produção artezanal, sem dúvida alguma, especialmente considerando que esse número deve ser dividido pelos oito tipos de vinhos que o François (o vinicultor) faz.
Particularmente, é desse tipo de vinho que eu gosto. Produtor pequeno, com um terroir próprio. � como restaurante: você pode optar por comer em um restaurante que serve comida para setecentas pessoas em um dia ou em outro que apenas serve vinte refeições.
Pode até ser que o grande produtor (de vinho ou de comida) tenha algo melhor. Técnicas avançadas, essas coisas. Pode até ser que o pequeno tenha um produto ruim, porque ser ruim de serviço é algo que não está relacionado com o porte da empresa ou do profissional.Â
Mas é fato que os grandes produtores, com auxÃlio dos tais “consultores” em vinho, produzem exatamente aquilo que o mercado deseja. Nisso está o “xis” da questão: nem sempre o que a média gosta é aquilo que eu gosto. Evidentemente, meu gosto não é melhor ou pior do que o gosto da média. Mas produção controlada dos grandes produtores faz algo “standartizado”, exatamente para atingir o gosto da maior parte das pessoas, para obter a maior parcela do mercado. Aà fica tudo muito parecido ou quase igual. Aliás, os grandes produtores estão conseguindo a façanha (para eles) de produzir vinhos idênticos em safras diferentes! Como não controlam a quantidade de chuvas (salvo via irrigação…) ou de sol, o jeito é manipular na produção…
O bom do vinho é justamente a sua diversidade: nenhum vinho é (ou não deveria ser) igual a outro. Na verdade,  não há um vinho “bom” ou “melhor”: há vinhos com caracterÃsticas diferentes, que podem ser mais agradáveis para algumas pessoas ou não. Há vinhos com mais corpo ou mais leves; mais ácidos ou menos ácidos; mais jovens ou envelhecidos; com mais ou menos tempo de barrica; com mais ou menos tanino; e por aà vai… Junte-se a isso a comida que acompanhará o vinho que você for tomar, para fazer uma boa combinação.
Bem, tem gente que prefere comer no McDonald’s… Sem discutir o valor alimentar desse produto, eu prefiro um restaurante pequeno no interior da França. Ã? uma questão de gosto. Mas eu confesso: não tenho a menor simpatia pelos Estados Unidos ou por sua cultura, inclusive alimentar, muito menos por seu IDH ridÃculo em relação ao seu PIB per capita. Ã? possÃvel que existam vinhos americanos que me agradariam, mas devem ser como pomba filhote: sei que existe, mas nunca vi.